No fundo eu a amava tanto que tudo passou a ser muito difícil. Digo difícil pois muitas vezes era preciso beber dez cervejas e fumar quinhentos baseados buscando um sossego que não vinha pra substituir aquele pensamento que ficava martelando na minha cabeça como uma mó movida pela água de um rio transparente no qual juntos mergulhamos de cabeça sem antes espetar uma varinha pra medir a profundidade. Não deu pé. A força atraindo para baixo e eu que tinha jurado permanecer submerso na alegria e na tristeza de repente senti que era necessário nadar buscando uma superfície. Afinal o rio é transparente e eu poderia vê-la onde quer que estivesse vivendo e nadando contra a corrente que a levou pra longe quando larguei sua mão e parti deslumbrado com a visão dos corais e recifes e céu e sol e outras coisas que estavam a uma braçada dupla de distância.
Quando voltei a vê-la quis falar-lhe dessas coisas, mas ela estava mais preocupada em como iria acontecer com a casa e com os amigos e com as satisfações. Já não nadava mais, com os dois braços junto ao corpo ela apenas afundava no lodo das vozes de consolo e conformismo e condenação e não havia meio de convencê-la que eu ainda estava ali, como se ela tivesse um desses distúrbios psicológicos e eu fosse apenas um amigo imaginário que ela nunca tivesse tocado e arrepiado e escutado e possuído.
No fundo eu a amava tanto que não conseguia entender suas acusações bizarras e bêbadas e sua vontade afundar na merda. Fiquei ali parado enquanto ela mexia os doces lábios frenéticamente atirando roupas na minha mala e esfregando seu ponto de vista paranóico e sem sentido na minha cara. Só consegui falar que a amava. Ela não entendeu. Até hoje. Espero que um dia entenda para seguirmos lado a lado com dois braços livres em qualquer direção sem qualquer receio de se perder ou se afogar nesse rio bravo calmo louco denso fundo imprevisívil e maravilhoso. Espero que ela entenda a diferença entre sentir amor e dizer que ama como quem busca no outro uma auto-afirmação. Espero até que a morte nos separe. E depois.
"Até que a morte nos separe."
ResponderExcluiré bom voltar pra cá e se deparar com o que se precisava mesmo ler outra vez
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