Morto. Ele está morto. E isso me dói tanto, mas tanto, que chego a pensar que ser esquartejada por mil lâminas doeria menos, pois assim eu não estaria aqui, viva e abandonada, numa sala cheia de imbecis que acham que minha dor diminui com abraços frios e frases feitas.
Quisera eu ter partido com Edward. Finalmente viveríamos no mesmo mundo. Seria como quando nos conhecemos, jovens e sonhadores, repletos de ideais e fantasias que quase nunca se tornaram realidade. Mergulhados num mundo de sensações, nossa vida era o agora.
E agora, não há mais vida. Só me resta chafurdar nessa dor que me corta as veias sem jorrar sangue, pois este quase nem mais circula nesse corpo vazio e gelado, tão morto quanto o de Edward. Dois cadáveres é o que somos agora, e como se isso não bastasse, sou obrigada a fingir que estou viva e apertar mãos e abraçar pessoas que nem me lembro quem são no momento.
Por quê não nos deixam a sós? Não sabem o quanto ele riria dessa situação hipócrita. Um velório civilizado para o jovem que enlouqueceu, não é isso que pensam todos vocês? Pobre Edward, vamos esquecer que quando o obrigamos a viver na nossa realidade mesquinha, acabamos por matá-lo. Vamos esquecer que o chamamos de louco pelas costas e sentimos pena, afinal ele era um jovem tão bonito. Vamos esquecer tudo e enterrá-lo como manda o figurino.
Não sabem o quanto ele acharia isso podre. Posso vê-lo aqui, com seus cabelos cacheados, rindo de todos vocês, talvez perguntando porque serviam café e não vodka. Acenderia um cigarro, e quando me visse me faria um carinho no rosto, carinho esse que me arrepiaria, como se ao seu toque flores se soerguessem em cada poro do meu corpo, num misto de torpor e calmaria.
Me lembro da primeira vez que esse sentimento me possuiu. Me lembro das vezes que, em frente ao espelho, desejei ter nascido homem parar poder ter por uma noite aquele homem me possuindo. Me lembro de ter chorado escondida no banheiro de uma boate ao vê-lo sair com outro cara pela primeira vez. E de como ele me consolou, e me livrou de todas essas encanações dizendo que era meu, mesmo se entregando pra outro.
EU vivi no seu mundo. Não apenas nele, como Edward, mas sinto orgulho em ter sido uma das poucas que teve a honra de adentrá-lo. Eu queria mais. Quando Edward gritava naquela camisa de força sendo bruscamente puxado de volta pra essa podridão, eu queria ter forças para soltá-lo. Eu queria ter visualizado suas alucinações, eu queria o aquecer nos meus braços nas noites febris. Eu queria ter o poder da cura, para salvá-lo. Mas eu não tinha. Tinha apenas essa vontade arrebatadora de deixá-lo ser quem era.
Por isso o ajudei em sua decisão. E não me arrependo. Mesmo sabendo que minha vida acabava naquele instante, pois ela sem sombra de dúvidas depende da dele, eu o ajudei a morrer. Agora, olhando seu rosto pálido, eu me consolo um pouco, pois é como se sorrisse para mim, agradecendo por tê-lo livrado desse mundo que não era pra ele. E me fizesse crer que tudo vai ficar bem, pois em breve estaremos juntos de novo, em seu mundo.
sábado, 29 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Sobre os campos
Tinha uma praça onde só iam os sonhadores. Tim Maia estava lá com sua melodia irreverente, nos envolvendo num círculo de tranquilidade. Uma brisa soprou em meus ouvidos que aquela era a praça preferida da lua, que logo passou por ali imponente e esnobe, arrancando suspiros e iluminando os papos e os violões.
Estranhei quando a lua se foi, o sol chegou e o meu sonho continuava. Numa tarde de domingo, Caetano não conseguia cantar tanta alegria. Uma gata apareceu e encantou o ambiente com sua doçura. Me lembro que esta reapareceria mais tarde, usando um adereço vermelho, se deitaria em meu colo e eu acompanharia seu ronronar lentamente ficar tão leve quanto o ar da madrugada.
Me lembro ainda de uma jogatina. Álcool e cartas numa mesa de um casino onde tocava The Police. Os jogos jamais tinham fim, visto que ninguém perdia. Papos e risadas irrompiam no ambiente, agitação de fim de uma noite que durava dias. E de repente acabou.
Acordei exatamente as 19:00, tomei um ônibus e desembarquei na vida real.
Estranhei quando a lua se foi, o sol chegou e o meu sonho continuava. Numa tarde de domingo, Caetano não conseguia cantar tanta alegria. Uma gata apareceu e encantou o ambiente com sua doçura. Me lembro que esta reapareceria mais tarde, usando um adereço vermelho, se deitaria em meu colo e eu acompanharia seu ronronar lentamente ficar tão leve quanto o ar da madrugada.
Me lembro ainda de uma jogatina. Álcool e cartas numa mesa de um casino onde tocava The Police. Os jogos jamais tinham fim, visto que ninguém perdia. Papos e risadas irrompiam no ambiente, agitação de fim de uma noite que durava dias. E de repente acabou.
Acordei exatamente as 19:00, tomei um ônibus e desembarquei na vida real.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Obsceno
Chupe o dedo.
Após comer uma barra de chocolate ou saborear aquela fruta madura.
Chupe o dedo.
Ao se deliciar com chantilly e morangos ou mesmo após alguns beijinhos.
Chupe o dedo.
Chupe aquele dedo
Melado.
Após comer uma barra de chocolate ou saborear aquela fruta madura.
Chupe o dedo.
Ao se deliciar com chantilly e morangos ou mesmo após alguns beijinhos.
Chupe o dedo.
Chupe aquele dedo
Melado.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Da solidão
Atualmente não posso ficar dez minutos sozinho que eles se tornam duas horas de pensamentos obscuros que me devoram por dentro. E como devoram, mastigam minha carne como um puma faminto e alagam meu cérebro com uma lama tão densa que eu sinto que minhas veias irão explodir e esse lodo vai dominar o corpo todo. Aí eu preciso sair e ver gente, aí eu preciso sair e ser visto.
Um chato é alguém que nos priva da solidão sem ser companhia, disse Giovanni Vincenzo Gravina. Talvez, mas por me tirar dessa solidão, eu relevaria grande parte da sua chatice.
Um chato é alguém que nos priva da solidão sem ser companhia, disse Giovanni Vincenzo Gravina. Talvez, mas por me tirar dessa solidão, eu relevaria grande parte da sua chatice.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Receio
(Ao som de As rosas não falam, na voz de Ney Matogrosso)
"O que em mim te afeta?" - você me pergunta enquanto acaricia minha mão.
Eu penso: "Você, desde o primeiro momento. O seu primeiro sorriso enquanto me pedia informações banais, sua mania de gesticular e se expressar bem com as palavras. O seu olhar e o seu beijo que me afetaram e me afetam até hoje. Talvez o que você não saiba é que sua companhia me faz bem. Podes me acrescentar tanto e eu tão pouco a você que chego a ter medo de não te ver mais. Parece que quanto mais eu te conheço, mais eu sinto que isso vai acontecer, que esse caso de verão não vai durar até o outono, e isso me afeta tanto que chega a doer."
Faço uma cara séria, te olho e digo: "Não sei, nunca pensei nisso.Talvez o seu sorriso."
Seguro tua mão e desvio o olhar, pois sinto que meus olhos me traem e tentam te dizer a verdade.
"O que em mim te afeta?" - você me pergunta enquanto acaricia minha mão.
Eu penso: "Você, desde o primeiro momento. O seu primeiro sorriso enquanto me pedia informações banais, sua mania de gesticular e se expressar bem com as palavras. O seu olhar e o seu beijo que me afetaram e me afetam até hoje. Talvez o que você não saiba é que sua companhia me faz bem. Podes me acrescentar tanto e eu tão pouco a você que chego a ter medo de não te ver mais. Parece que quanto mais eu te conheço, mais eu sinto que isso vai acontecer, que esse caso de verão não vai durar até o outono, e isso me afeta tanto que chega a doer."
Faço uma cara séria, te olho e digo: "Não sei, nunca pensei nisso.Talvez o seu sorriso."
Seguro tua mão e desvio o olhar, pois sinto que meus olhos me traem e tentam te dizer a verdade.
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