sábado, 29 de janeiro de 2011

Duas mortes

Morto. Ele está morto. E isso me dói tanto, mas tanto, que chego a pensar que ser esquartejada por mil lâminas doeria menos, pois assim eu não estaria aqui, viva e abandonada, numa sala cheia de imbecis que acham que minha dor diminui com abraços frios e frases feitas.

Quisera eu ter partido com Edward. Finalmente viveríamos no mesmo mundo. Seria como quando nos conhecemos, jovens e sonhadores, repletos de ideais e fantasias que quase nunca se tornaram realidade. Mergulhados num mundo de sensações, nossa vida era o agora.

E agora, não há mais vida. Só me resta chafurdar nessa dor que me corta as veias sem jorrar sangue, pois este quase nem mais circula nesse corpo vazio e gelado, tão morto quanto o de Edward. Dois cadáveres é o que somos agora, e como se isso não bastasse, sou obrigada a fingir que estou viva e apertar mãos e abraçar pessoas que nem me lembro quem são no momento.

Por quê não nos deixam a sós? Não sabem o quanto ele riria dessa situação hipócrita. Um velório civilizado para o jovem que enlouqueceu, não é isso que pensam todos vocês? Pobre Edward, vamos esquecer que quando o obrigamos a viver na nossa realidade mesquinha, acabamos por matá-lo. Vamos esquecer que o chamamos de louco pelas costas e sentimos pena, afinal ele era um jovem tão bonito. Vamos esquecer tudo e enterrá-lo como manda o figurino.

Não sabem o quanto ele acharia isso podre. Posso vê-lo aqui, com seus cabelos cacheados, rindo de todos vocês, talvez perguntando porque serviam café e não vodka. Acenderia um cigarro, e quando me visse me faria um carinho no rosto, carinho esse que me arrepiaria, como se ao seu toque flores se soerguessem em cada poro do meu corpo, num misto de torpor e calmaria.

Me lembro da primeira vez que esse sentimento me possuiu. Me lembro das vezes que, em frente ao espelho, desejei ter nascido homem parar poder ter por uma noite aquele homem me possuindo. Me lembro de ter chorado escondida no banheiro de uma boate ao vê-lo sair com outro cara pela primeira vez. E de como ele me consolou, e me livrou de todas essas encanações dizendo que era meu, mesmo se entregando pra outro.

EU vivi no seu mundo. Não apenas nele, como Edward, mas sinto orgulho em ter sido uma das poucas que teve a honra de adentrá-lo. Eu queria mais. Quando Edward gritava naquela camisa de força sendo bruscamente puxado de volta pra essa podridão, eu queria ter forças para soltá-lo. Eu queria ter visualizado suas alucinações, eu queria o aquecer nos meus braços nas noites febris. Eu queria ter o poder da cura, para salvá-lo. Mas eu não tinha. Tinha apenas essa vontade arrebatadora de deixá-lo ser quem era.

Por isso o ajudei em sua decisão. E não me arrependo. Mesmo sabendo que minha vida acabava naquele instante, pois ela sem sombra de dúvidas depende da dele, eu o ajudei a morrer. Agora, olhando seu rosto pálido, eu me consolo um pouco, pois é como se sorrisse para mim, agradecendo por tê-lo livrado desse mundo que não era pra ele. E me fizesse crer que tudo vai ficar bem, pois em breve estaremos juntos de novo, em seu mundo.

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