Acordei. O som da ausência dentro de mim ecoando e ecoando e devorando minha carne e alma hoje me pareceu estranhamente familiar. Parecia que se eu ficasse em silêncio, assim, quietinho, era possível ouvir o teu doce sorriso quando acordava e me pegava te olhando. Ou então ouvir as gargalhadas que você dava quando eu te fazia cócegas.
Casa vazia, o cheiro daquele chá de romã que você adorava invadindo a cozinha e o meu peito, abrindo as feridas que ainda nem cicatrizaram e fazendo tudo sangrar num sangue vermelho claro transparente que ainda ferve quando esbarra no fundo da caneca. O cheiro do chá continua doce mas o gosto me parece mais amargo. Talvez por estar sozinho, talvez por ainda nao ter escovado os dentes e portar na boca o gosto amanhecido das doses do dia anterior, talvez por um pouco de cada coisa ou muito de uma só. Não sei agora. Pensar nisso faz minha cabeça doer e passo a procurar um analgésico. Como era mesmo aquilo que você fazia? Pressionar os indicadores nas têmporas com leves movimentos circulares? Tento em vão. Talvez isso só funcione se os dedos forem de outra pessoa, ou será que o alívio da dor era porque eu me distraia olhando pra sua expressão séria e preocupada me encarando de frente e acabava me esquecendo de toda dor que sentia, só conseguindo pensar no quanto eu estava feliz do seu lado? Com certeza a última opção é a mais certa.
Me sento na sala para tomar chá, ligo a tv e passo por todos os canais sem olhar nenhum. O que você estaria vendo agora? Desligo, ligo a vitrola e ouço a Dolores, mais uma vez. Assim como ela me pergunto se algum dia aparecerá alguém que ponha fim ao meu tormento. Ouvir sua voz tão triste e rouca chega a ser reconfortante. Passo a imaginar o que você estaria fazendo se estivesse aqui. Talvez estivesse lendo aquele livro do Osho que ainda está onde você deixou. Você mesmo dizia que nunca ia conseguir terminar esse livro, pois cada página demorava dias pra ser completamente digerida. Pego o livro. Trechos grifados, nunca me acostumei com essa sua mania de achar que era a única pessoa que ia ler o livro, ou que todos iam achar seus trechos preferidos interessantes. Leio num desses trechos "o amor verdadeiro é uma incerteza assim como a vida é uma incerteza". Lágrimas deixam meu chá ainda mais amargo. Lembro de você certa vez me dizendo essa frase e eu te contrariando dizendo que éramos pra sempre. E fomos. Pena que esse pra sempre pra vc foi tão curto quanto um soluço desses que dou agora. E pra mim, sem você, parece tão longo...
Tento mais uma vez sair na rua e como sempre dou uma volta no quarteirão engolindo o choro e evitando os olhares dos transeuntes. Tantas lembranças me sufocam assim que tranco o nosso apartamento e desço as escadas. Antes de entrar no prédio e subir respiro fundo e resolvo ser forte. Passo reto sem olhar a porta ou pensar onde meus pés me levam. Desço uma escada e pego um metrô qualquer sem sequer olhar seu destino. Novamente aquelas lágrimas, agora nem me importo mais com os olhares. Uma senhora me pergunta se está tudo bem e tenho vontade gritar à ela que não, que te quero de volta, que tudo isso foi injusto, mas me seguro e digo que sim, está tudo bem, até disfarço dizendo que estou resfriado. Agradeço a preocupação e desembarco na próxima parada. Sem rumo. Sem destino. Sem você.
Paro numa loja de discos e pergunto sobre aquele disco do David Bowie que você queria. Não, ainda não chegou. Saio da loja cantarolando "he could lick them by smiling, he could leave them to hang" e me pego sorrindo enquanto me lembro do dia que você cantou essa música enquanto atravessávamos a cidade voltando pra casa a pé, embriagados de vodka barata e embalados por aquele baseado esperto que você sem vergonha descarademente arranjou seduzindo aquela senhora do bar. Ah como ríamos. Ríamos alto. Ríamos como se o mundo fosse nosso, e nada mais houvesse. Percebo que hoje volto pra casa só com essa última parte de certeza. Talvez ainda haja algo, talvez eu ainda te encontre, quem sabe? Faço uma nota mental pra depois ler um pouco sobre vida após a morte e dou risada de mim mesmo pensando 'meu deus, a que ponto cheguei'. Me lembro outra vez no seu sorriso e me sinto melhor enquanto entro no metrô e deixo que ele me leve de volta pra casa. Entro no apartamento. Me deito e espero por algo que me leve de volta pra vida.
"abrindo as feridas que ainda nem cicatrizaram" doeu....sempre me sinto uma personagem nos teus escritos. esse conto me doeu, me doeu inteira. ardeu. lindo e triste. porra, mexeu demais comigo.
ResponderExcluirum beijo da Ana. da Gata.