domingo, 13 de fevereiro de 2011

Da noite

Um bar, um bar como outro qualquer. Ao som de Chico, conversas altas e risadas estrondosas de uma multidão de rostos desconhecidos que de repente viraram figurantes da nossa história. Ele no papel principal, estava no centro, e era tão fácil achá-lo que todos os meus olhares perdidos acabavam sendo puxados para ele e eu ia me perdendo no castanho de seus olhos que me fitavam curiosos. Mais algumas doses, e a coragem vem. Será? Continuo a conversa com os amigos sem o menor interesse pelo que dizem. Gestos milimetricamente calculados, imaginando como ele me vê.

Um cigarro. Uma ótima desculpa para sair dessa conversa que já me chateia e ter um momento de tranquilidade numa área de fumantes desconhecidos que são levemente ocultados por uma névoa de fumaças que sobem no ritmo dos suspiros que irrompem no ar. Uma chama, um trago e um momento de tranquilidade, que se vai quando o vejo se aproximar. Meu coração nervoso se acelera tanto que chego a olhar em volta e verificar se alguém ali ouvia as batidas se misturando com os tambores daquele sambinha distante. Mas ele para, como se não soubesse que eu estava ali, que eu era o seu destino naquela noite. Termino meu cigarro e volto para a mesa, no caminho tropeço naquele olhar e paro por um instante, até me localizar e seguir em frente.

Uma amiga acena do balcão, me diz algo que eu não ouço e me dá um copo. Uma multidão de figurantes que agora dançam ao som dos pandeiros. E rodam, descrevem círculos no ar, cada vez mais rápidos. Até que ele chega e ocupa o centro desse círculo. Um ponto fixo na minha embriaguez, eu confesso. Pediu uma vodka, disso eu me lembro bem. Me aproximo, digo um oi de velho conhecido e ele me responde da mesma forma. Conversas alcoolizadas, risadas perdidas e um interesse mútuo em descobrir as coisas do outro, para depois esquecê-las.

Fim da noite, um táxi comum, um chegar em casa, não repare na bagunça, um Belle and Sebastian e um abraço. Uma camiseta umidecida pelo calor do bar, um cheiro de perfume com um toque de suor, do seu cheiro, da essência deliciosa que sua pele morena solta em mini-gotículas cintilantes que se perdem nos pelos negros e densos. Sinto seu gosto doce contrastando com o amargo das vodkas e cigarros que se encontra em minha boca. Olho-o de baixo e vejo o seu sorriso de canto de boca, aquele que me fascinou horas atrás. Amanhece, deitamos e cochilamos. Acordo e o vejo se vestindo. Finjo que ainda durmo quando me dá um leve beijo e parte. Me levanto, sacio a sede e tento matar a ressaca com banho, cafeína e tabaco. Penso nele pela última vez, e saio atrasado pro trabalho.

Um comentário:

  1. Gostei do Bloq!!

    Parabéns!! Este ultimo "Noite" realmente é muito bom...fora outros...Gostei Will, continue...

    Daniel

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